6# MEDICINA E BEM-ESTAR 23.10.13

UMA NOVA FRONTEIRA NO COMBATE  DEPRESSO

Medicamento melhora sintomas de pacientes graves que at agora se mostravam resistentes aos antidepressivos conhecidos e marca o incio de uma grande mudana na luta contra a doena
Mnica Tarantino 

Uma em cada cinco pessoas que voc conhece experimentar algum grau de depresso ao longo da vida. Desse contingente, pelo menos 20% sero resistentes aos tratamentos convencionais e precisaro associar diversos recursos da medicina, como outros remdios, a estimulao magntica transcraniana, a eletroconvulsoterapia (choques) e a terapia cognitivo-comportamental, para conseguir alguma melhora dos sintomas. Na semana passada, esse grupo recebeu uma excelente notcia. No maior trabalho feito at agora com a lanicemina, substncia que atua por canais inexplorados pelos antidepressivos existentes, os pesquisadores conseguiram aliviar com sucesso os sintomas de pacientes com depresso severa e difcil de tratar. E o que  melhor: sem as reaes adversas intensas observadas em drogas do mesmo gnero testadas anteriormente. O trabalho foi publicado pela revista Molecular Psychiatry, do grupo Nature, e est sendo elogiado pela comunidade cientfica. Essa nova substncia representa o incio de uma nova era no tratamento do transtorno depressivo, pontua o psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, coordenador do Programa de Doenas Afetivas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de So Paulo (USP). Atualmente, a maioria dos antidepressivos disponveis age sobre os neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina, associados com a regulao do humor, da percepo e das emoes. Ao elevar sua disponibilidade no organismo, os remdios promovem uma srie de eventos dentro das clulas nervosas que levam  melhora dos sintomas fsicos, psicolgicos e comportamentais da depresso.

O alvo da lanicemina  o glutamato, neurotransmissor que atua na comunicao entre as clulas nervosas por caminhos diferentes daqueles utilizados pela serotonina, por exemplo. As investigaes sobre as origens da doena, cujas causas e mecanismos no esto completamente elucidados, indicam que o glutamato e seus receptores (as fechaduras qumicas por onde penetra nas clulas) podem ser peas-chave na soluo de casos refratrios e para acelerar as respostas dos pacientes. Presente em excesso, o neurotransmissor deflagra uma ao txica capaz de interditar a comunicao entre as clulas neuronais.

 A aposta dos pesquisadores  bloquear as vias acionadas pela quantidade exagerada de glutamato e, desse modo, impedir seus efeitos. A lanicemina atua exatamente a, inibindo um grupo de receptores chamados NMDA. Outras seis substncias com impacto sobre o glutamato esto em estudo. 

 Antes, porm, que a lanicemina possa ser indicada pelos mdicos, muitos desafios precisam ser solucionados. Parece que ela leva duas semanas para atingir seu ponto mximo de ao. Precisamos de medicamentos com impacto mais rpido, em horas ou dias, como a cetamina, diz o o psiquiatra Moreno.

A cetamina (tambm grafada como ketamina e quetamina)  um potente anestsico usado em pequenas cirurgias que, em doses menores, tambm age sobre receptores do glutamato e produz efeitos poderosos em pacientes graves num perodo que pode ser de 110 minutos aps a injeo do remdio. Um dos seus problemas, porm,  que pode produzir complexas reaes adversas assim que  ministrada, como alteraes de percepo que levam  perda da noo de formas e sons, do espao e da realidade. Alm disso, sua atividade no organismo no se sustenta por mais de duas semanas. A vantagem da lanicemina  no produzir esses efeitos intensos sobre a percepo nem alteraes de presso arterial, disse  ISTO Gerard Sanacora, diretor do programa de pesquisa em depresso da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e principal autor do estudo sobre o medicamento. A desvantagem  que a lanicemina demora como os remdios tradicionais para agir em vez de mostrar benefcios rpidos como a cetamina. No entanto, ela mostrou eficincia em bem menos tempo em um estudo inicial com 34 pacientes que nunca haviam tomado outros remdios. Isso est levando os pesquisadores a especular que a demora pode estar relacionada ao uso prvio de outras drogas. 

 A prxima etapa da pesquisa ser replicar as descobertas em centros de pesquisa espalhados pelo mundo. Isso pode levar entre cinco e dez anos, esclarece o cientista Jlio Licnio, editor da publicao que divulgou o estudo e membro do South Australian Health and Medical Research Institute, na Austrlia.  

